A advocacia criminal brasileira sempre foi marcada por desafios estruturais, institucionais e, acima de tudo, humanos. Defender direitos fundamentais em um cenário frequentemente atravessado por pressões midiáticas, decisões acirradas e um sistema penal seletivo exige não apenas técnica, mas coragem, resiliência e compromisso ético inegociável.
Sim, esse compromisso é algo inegociável. Não existe margem para negociação quando estamos compromissados com a ética.
É nesse contexto que assumo, com total senso de responsabilidade, a presidência da Associação das Advogadas e dos Advogados Criminalistas do Estado do Rio Grande do Sul (ACRIERGS), uma instituição com mais de quatro décadas de história. Trata-se de um momento que transcende a esfera pessoal: é, acima de tudo, um marco institucional.
Ser mais um advogado negro a ocupar esse espaço de liderança não é apenas simbólico, é histórico e nossa gestão faz parte deste momento. Em tempos atuais, ainda marcados por desigualdades, pelo racismo estrutural, a presença de pessoas negras em espaços de poder e decisão não pode ser tratada como exceção, mas como um passo necessário rumo à equidade. A advocacia, especialmente a criminal, precisa refletir a diversidade da sociedade que representa e defende.
Essa conquista não apaga as dificuldades, ao contrário, evidencia o quanto foi e continuará sendo necessário resistir. Não foi fácil chegar até aqui, e não será fácil conduzir a gestão. Mas estamos prontos. Prontos para enfrentar os desafios de uma advocacia que, muitas vezes, vê suas prerrogativas serem violadas, sua atuação ser deslegitimada e seus profissionais, especialmente os mais jovens, desmotivados diante da escassez de oportunidades.
Na semana anterior ao pleito, ouvi o relato de uma jovem advogada que descreveu o quanto estava sendo difícil exercer a profissão, não apenas por ser jovem, mas especialmente por atuar na área criminal. Ela me contou que, diante dos obstáculos e da falta de apoio, precisou migrar de área, deixando esse sonho para segundo plano, para um outro momento da vida. Esse tipo de história reforça o que venho dizendo: precisamos resgatar essas pessoas. Os mais jovens precisam da gente, assim como nós também precisamos deles, da sua energia, das suas ideias e da renovação que é saudável e necessário para a advocacia.
A vitória no pleito do último dia 29 de abril de 2026 não representa o triunfo de um grupo sobre outro. Não há espaço, nesta gestão, para divisões. Há, sim, um compromisso firme com a soma. Soma de esforços, de ideias, de trajetórias e de propósitos.
A ACRIERGS que se projeta para este novo ciclo será uma instituição de todos e para todos. Uma advocacia unida, forte e atuante não se constrói com fragmentação, mas com diálogo, inclusão e ação coordenada. Nossa diretoria e nosso conselho assumem essa missão com seriedade e espírito coletivo. Esse será um dos meus maiores propósitos neste grupo.
É fundamental afirmar: espaços como este precisam, sim, ser ocupados por pessoas negras. Não por concessão, mas por direito. Não por circunstância, mas por competência. A presença negra em posições de liderança na advocacia é também uma forma de reafirmar o compromisso com a justiça em sua dimensão mais ampla, aquela que não se limita ao processo, mas alcança a estrutura social.
Seguiremos juntos e juntas, conscientes das dificuldades, mas movidos pela convicção de que é possível transformar. A advocacia criminal precisa de voz, de firmeza e de unidade. E é exatamente isso que buscamos construir.
O desafio está posto. E nós estamos prontos.