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29.04.14

César Peres

Sobre a relação advogado-cidadão desrespeitado-médico



 

Dia 25/04, li, na Zero Hora, artigo assinado pelo médico Fernando de Oliveira Souza, o qual, em síntese, depois de tecer alguns comentários sobre a respeitabilidade de que sempre gozou a sua profissão frente à sociedade, reclama que, nos dias atuais, tal situação teria se modificado.
 

Segundo o articulista, a relação médico-paciente sempre teve terceiros interessados: no passado teriam sido os demônios; hoje são os advogados, a quem os pacientes recorrem quando acreditam terem sido prejudicados pela atuação do médico por falta de atenção que possa ter resultado em imperícia, negligência ou imprudência.
 

Na tentativa de destrinchar a sofisticada construção proposta no texto, fiz-me a seguinte indagação: numa democracia, a quem - senão a um advogado - imagina o Dr. Souza devam os cidadãos recorrer quando se imaginarem lesados por algum profissional da medicina (ou da engenharia, ou arquitetura, ou, mesmo, do direito)?
 

A cerebrina construção proposta no escrito chega ao ponto de atribuir aos advogados o fomentar de uma suposta indústria de reclamatórias quanto à atuação médica, que corre em paralelo à febre do dano moral.  A afirmação - por todos os títulos leviana - parece esquecer que os advogados têm sim justamente o mister de levar os pleitos de quem se sente lesado ao Poder Judiciário, ao qual cabe, uma vez esclarecidos os fatos, dizer quem tem direito e quem não o tem. Tudo como forma civilizada de resolução dos conflitos. Isto porque, num regime democrático, todos são iguais perante a lei. Portanto, ninguém - nem mesmo os médicos, Dr. Souza! - está acima do bem e do mal, ou liberado para agir com os demais sem os cuidados reclamados pela sua atividade.
 

Ao final do texto, de forma patética, o profissional da medicina não se peja de deixar clara a sua falta de segurança e acuidade: confessa haver solicitado, desnecessariamente, complexo e caro exame (tomografia computadorizada do crânio), a uma professora, mesmo na ausência de sinais neurológicos e que, claramente, apresentava todas as evidências de abalo emocional. E - atenção com os custos excessivos, senhores pacientes e diretores dos planos de saúde! -, diz que os médicos estão a agir assim para evitar possível processo, ou para se proteger...
 

Depois dessa, como afirmar que os demônios estavam errados?